Auto-estima: útil como sujeira de ralo

antes de eu começar a namorar, sempre tinha um picaretinha que chegava perto de mim pra dizer “você nunca vai conseguir amar alguém se não se amar primeiro”. a idéia básica desse raciocínio é que me dando valor, eu encontraria alguém que também me daria valor e, assim, eu estaria apta a desempenhar de forma saudável o meu papel num relacionamento.

quando eu conheci o meu noivo e a gente começou a namorar, foi o que eu fiz. me dar valor.

eu me dava valor o tempo todo. priorizava os meus sentimentos, os meus sonhos, as minhas vontades, o meu tempo, a mim. eu. eu tinha que estar em primeiro lugar.

fui um sucesso na minha valorização pessoal. sobre o relacionamento… bom, foi tipo entrar com pedido de falência.

o que eu descobri que “amar a você mesmo” não tem nada a ver com traumas e complexos e auto-estima e essas groselhas. “amar a você mesmo” é só um jeito mais fino de dizer “egoísmo”.

porque quando as pessoas falam umas pras outras que elas precisam se gostar, elas não fazem idéia do que estão dizendo. porque quando você fica lá se gostando e se dando valor, na prática, é impossível não se chocar diretamente com a segunda figura presente no relacionamento, aquela que não é você mesmo. e claro, você vai dar com o nariz no dividir, no ceder, no abrir mão.

na prática, amar a você mesmo e ficar se dando valor quer dizer necessariamente colocar a sua demanda em primeiro lugar e a do outro em segundo. é priorizar sempre os seus complexozinhos fajutos de rejeição. é ouvir com um sorriso o que o outro está precisando e achar tudo aquilo muito fútil já que o seu problema é bem pior. “mas e eu que nunca tive mãe? e eu que nunca tive carinho? e eu que nunca fui ensinada sobre o que é amar alguém? e eu que estou sem emprego? e eu que estou com diarréia?”.

e vamos combinar que complexo de rejeição nada mais é do que amor a si mesmo. se não fosse, as pessoas não teriam medo de serem rejeitadas. elas só tem porque passam tempo demais olhando para elas mesmas.

eu, eu, eu, eu, eu.

aí você pode dizer “mas Gaby, amar a você mesmo não é ser egoísta. tem que ter um equilíbrio, para que você faça o outro feliz mas preservando a sua auto-estima”. desculpa, minha filha, você só pode ser solteira. que horas eu faço isso? como? quem vai casar ou é casado sabe muito bem que é impossível amar deixando a sua vontade intacta. na maioria das vezes você tem que passar por cima dela com um trator. como quando eu quero passar o Natal com a minha família pelo terceiro ano seguido e ele me diz “não, nesse ano é com a minha”. ou quando tem um casamento de um amigo nada-a-ver dele e eu não quero ir porque é bem no dia que tem o jantar das minhas amigas do trabalho. ou quando tem que viajar com a família dele e eu quero viajar com a minha.

e se ele resolver ter amor próprio também, como é que faz?

cara, dá vontade de socar aquelas psicólogas que vão no Altas Horas e na Ana Maria Braga. queria ver elas “se amando” com alguém do lado que também é cheio de lacunas.

bom, aí eu cheguei a conclusão de que ou eu 1) ficava lá me amando e morria solteira ou eu 2) aprendia a engolir as minhas demandas e morria casada.

eu SUPER escolhi a número 2.

 

tirinha daqui
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6 respostas para Auto-estima: útil como sujeira de ralo

  1. Priscilla disse:

    muito bom esse texto mulher! concordo 100%. quem acha que a prioridade é a valorização pessoal acaba sem ninguem. sem amor e sem amigos. tambem prefiro escolher amar alguem e morrer casada! hahaha

  2. Taina disse:

    Oi Gaby!
    Agora que fui descobrir que você tem esse blog!! O que aconteceu com o xucrutinho? Depois que vender todas as melissas e casar, seu blog acaba?

    Quanto ao texto, terei que discordar em alguns pontos.
    Se amar não é ser egoísta e nem fazer todas as auto-vontades (isso existe?), não é se mimar.
    A gente ama o marido/namorado/noivo mas não necessariamente faz todas as vontades dele! A gente ama os filhos mas não faz todas as vontades deles!

    Se amar é se cuidar, sim. Estar bem consigo mesmo, ficar feliz com o que tem.
    Quem não se ama é chato, só sabe reclamar e desconta nas pessoas todas as frustrações, etc.

    Bom, eu era assim chata até pouco tempo… hehehe minha opinião!

    Beijos!

  3. Renata disse:

    Pois é. Essa mulherada do “eu sou mais eu” que fica aí “se valorizando”, ao mesmo tempo chora as pitangas porque o tempo passa e o homem ideal não aparece. Homem nenhum vai querer uma mulher que não dá o braço a torcer pra nada (o contrário também se aplica, lógico). Nunca vai existir uma relação saudável a dois (ou mais, numa família maior) sem que cada um faça suas concessões. Que bom que vc encontrou seu equilíbrio!
    Acho que não te perguntei, mas qdo é seu casamento?
    Beijo grande =)

  4. pamela disse:

    meu eu nao sou mt de ler, mais seu texto em cativo….

    florzinha, ameii…..

  5. GENIAL! Sério, um dos melhores textos que eu já li.
    Venho de uma familia onde a maioria é mulher, separada, gordinha e frustrada. Mas todas usam ‘ame você mesmo primeiro’ como mantra. Eu nunca fui assim.
    Namoro à dois anos e já passei pelas minhas vontades, como você diz, com um trator e eu sou feliz desse jeito. Me amando ou não: eu sou amada, eu amo (não necessariamente eu mesma) e acho que é isso que importa no final.

  6. kaka disse:

    Gaby, vc tem que escrever um livro!!!! ou melhor, queria ouvir vc falando essas coisas que escreve num programa de radio!!! seria óóóótemo!!!!! eu leio e vejo vc gesticulando, virando os olhos com um “hey!! ahã? alooouuu…” que saudade de vc!!!!!
    quanto a dicussao do “eu me amo”, ai guria, é um exercicio constante… no relacionamento, no trabalho, nas amizades, na familia… quantas vezes tentei ser a prioridade e cedi, cedi, cedi… e fui feliz!!!!!! ja passei muuuuita raiva tambem mas está na minha essencia: eu me amo porque amo o outro e eles me amam porque sou assim! o que nao dá é pra sofrer. isso nao combina com amor. se anular, tambem nao. viver a vida do outro, muito menos. mas te digo, aos quatro anos de um casamento muito feliz, que dá sim, pra se amar, ser amada, ceder e receber mais do que se espera. beijao

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