Amo você até gordo e careca II

essa questão começou a me incomodar não porque eu comecei a reparar nos casais e a ouvir as reclamações das mulheres e dos homens. essa questão começou a me incomodar porque eu comecei a reparar em mim.

me chame de louca, mas parece que hoje, ter 30 anos é quase a mesma coisa que ter 20 antigamente. não estou falando de maturidade pura e simples, de você chegar a uma certa idade, olhar para o horizonte e dizer aquelas frases horríveis tipo “parece que foi ontem que blá blá blá” ou “já sou uma balzaquiana” etc etc etc.

estou falando da vontade de viver. eu lembro que quando eu era pequena, fazer 30 anos para uma mulher era tipo a sentença do embagulhamento. eu vi isso acontecer com a minha mãe e as amigas dela. assisti aquela sentença de morte invisível decretada por não se sabe bem ao certo quem caindo sobre elas. acabava a vontade de se arrumar, com direito a confinamento em blusas de gola alta, era o fim das novidades, porque a partir dali era só esperar os inúmeros inevitáveis, não havia mais desafios porque já era mais do que tempo de se estar estabilizada. era meio que o início de um processo de fossilização.

hoje, as minhas amigas de 30 não passam nem perto desse perfil. eu não passo perto desse perfil. a vida continua sendo uma novidade para mim como era quando eu tinha 20. minha carreira profissional continua em evolução, agora é que eu vou me casar, toda a moda disponível aí parece que é feita para mim, eu ainda não penso em ter filhos.

é como se esses 10 anos que separam os 20 dos 30 tivessem encurtado.

aí entrou a teoria do “Amo você até gordo e careca”.

eu declamava isso aos quatro ventos desde que era mais jovem, uma militante da beleza interior, do amor pelo o que se é e não pelo o que se aparenta.

como a vida às vezes é um grande clichê, é claro que eu não poderia ter sido mais reprovada neste teste. e o que aconteceu foi que a medida que eu fui ficando mais longe dos 20 e mais perto dos 30, me vi reprovando em mim e no meu noivo as mudanças trazidas pelo tempo na nossa aparência física. num português mais claro, comecei a odiar o peso a mais, os cabelos a menos, as roupas mais sérias, os ensaios para rugas. e isso gerou uma crise que eu não imaginei que havia em mim potencial para gerar, já que sempre defendi as bandeiras nobres contra a futilidade.

a verdade é que eu me descobri um pouco fútil.

vi que podia ser a Dona Florinda da estética. rápida em cobrar mudanças de hábitos, em exigir cuidados com a pele, impiedosa com os quilos a mais. caí em cima do meu noivo com um discurso farisáico e opressor sobre a necessidade de sermos um casal bonito.

bonito.

bonito.

bonito.

logo veio o chazinho de realidade. quando veio, eu estava no meio de uma briga com o meu noivo sobre as minhas demandas estéticas. uma briga. uma de verdade.

bonito.

bonito.

bonito.

eu tinha virado um eco num abismo.

lembro de um pastor que uma vez pregou sobre as tragédias que acontecem na nossa vida e de como algumas pessoas tem o costume de perguntar nessas horas “aonde é que está Deus agora??”. a resposta do pastor serve para mim até hoje.

ele disse “Deus está aonde sempre esteve, fazendo o que sempre fez, sendo o que sempre foi. a pergunta certa a fazer é: aonde está você”.

depois de ter me encontrado fora da estrada, perdida em um atalho tortuoso, voltei para o caminho reto. e de casamento marcado.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Amo você até gordo e careca II

  1. Isa disse:

    “Deus está aonde sempre esteve, fazendo o que sempre fez, sendo o que sempre foi. a pergunta certa a fazer é: aonde está você”.

    é isso aí, Gaby!!

    beijos e abraços saudosos. =)

  2. july disse:

    Realmente é preciso cuidar do corpo como da alma e do espírito, independente do casamento, eu acredito nisso. Amar a si mesmo – e ao cônjuge afinal – faz parte disso. Mas quando se coloca tantas coisas na balança que se chama amor, no mais complexo significado disso, parece que a embalagem é só a cereja do bolo (pequena, mas importante, claro), que tem uma cobertura e um recheio mtoooo bom, de carinho, respeito, sinceridade, diversão, alegria, conquistas, lutas, medos, crescimento, amizade, uma vida toda né =]

    Enfim, gostei mto do que vc escreveu gabi hehe
    Um grande beijo flor! =*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s