odeio-me vez ou outra

que vergonha descobrir-se, em meio às casualidades, indisposta a morrer pelas causas nobres. em impasses idiotas da vida, fraca. em pequenos conflitos velados, anti-ética. que deprimente não ser verdadeira e, quando sou, sinto-me péssima porque normalmente sou reprovada. triste preferir os sorrisos de aceitação. a gargalhada que diz “você faz parte do grupo”. por isso digo o que querem ouvir.

que tristeza mortal desafinar em público.

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coelhinho da páscoa

a grande verdade é que auto-estima não existe. e eu preciso te aconselhar a não acreditar mais nisso.

você precisa abrir mão o tempo inteiro para as coisas funcionarem. e não só abrir a mão, mas os braços, as pernas, o coração, a mente. se você fecha algum deles pensando em se priorizar, haverá consequências. alguém vai sofrer, alguém que você ama. logo, você também vai porque você odeia ver quem você ama se debatendo.
é por amor a mim que eu levanto às cinco da manhã e faço café para ele que vai trabalhar? é por me estimar muito que eu balanço positivamente a cabeça, resignada, entendendo a necessidade, quando há um “NÃO!” preso na minha garganta? quem é que gosta de fingir que não aconteceu nada para que o equilíbrio se mantenha? ou quem é que gosta de comer verduras porque o outro está com medo que você vá parar no hospital preocupado com o sódio da lasanha congelada?

quem é que casa pensando em se fazer feliz?

desculpe, não existe auto-estima.

e para mim tudo bem. eu só não gosto quando tentam me enganar.


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eu sentei num caroço de abacate

de repente, eu comecei a reparar no tempo. em como ele me engole se eu não caminhar atenta. atenta às atividades que comem minhas horas. ao que eu escolho para me entreter. aos motivos que me levam a procurar distração. que tipo de conversa me envolve e o quanto eu sou capaz de abrir mão de um princípio só para não causar constragimento a quem eu ouço ao reprovar sua piada maliciosa.

meu Deus, como eu torro tempo precioso com groselha. me dopo com conforto e com comida.

eu não quero conforto. eu quero um cérebro.

deixa meu caroço de abacate aí. que eu permaneça sentada sobre ele para todo o sempre.

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um frescor no meu raciocínio

tá, eu não quero ser dessas desmioladas, que assistem filmes românticos como se fosse homem vendo pornô. dessas que não enxergam as coisas e acham que os problemas todos se desdobram fora de si. que é uma vítima do mau-humor dos outros ou da falta de compreensão de alguns homens.

não, eu não sou dessas.

eu quero ser uma daquelas abertas às quebras de paradigma. daquelas que arriscam uma crase, que se desapegam de toda comida gostosa, que acham o silêncio muitas vezes melhor do que música, que, através da renovação da mente, não se amoldam ao padrão deste sistema. eu quero gostar de descobrir que homem não pensa só em sexo. que mulher nem sempre tem uma tendência a ser bruxa. que a gente não precisa viver em função da mãe.

eu quero descobrir que Jesus me mantém centrada neste mundo esquizofrênico. e que há salvação pra mim.

eu não sou dessas de mente cauterizada.

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eu chutaria um gorila

achei um texto interessante que eu escrevi no ano passado e não publiquei. eu ri lendo.

“eu pensava nisso enquanto ouvia uma fornecedora hoje. ela me explicava detalhes a respeito da vida das flores e do nível de imponência de cada uma, como se eu fosse leiga E debilóide. eu olhava pra boca dela se mexendo enquanto ela tagarelava e em vez de prestar atenção na ficha técnica da tulipa, eu reparava que o dente dela era cinza perto da gengiva. parecia que eles estavam encaixados, como uma dentura que já está vencendo e começa a deixar escapar partes da mecânica. que tipo de pessoa tem os dentes cinzas? como o dente de alguém fica cinza?

e a sala estava com um cheiro estranho. enquanto ela falava, eu olhava para todos os lados, discretamente, aproveitando as vezes em que ela divagava (e olhava para o teto) para tentar encontrar o foco do fedor. era um cheiro de pombal, mas com menos potência. talvez ela tivesse um animal de estimação. pelo cheiro não era um cachorro, definitivamente não era um cachorro.

a conversa terminou e eu não consegui descobrir.

eu chutaria que era um gorila, sério.

ela encerrou dizendo como todos os casamentos pra ela eram tratados como se fossem o dela. e como a equipe dela era sempre orientada dessa forma, a tratar as noivas como se fossem suas irmãs.

meu Deus, era oito da manhã quando eu acordei pela terceira vez naquele dia e eu estava caindo de sono.

na hora de fazer os cálculos para o orçamento, mais uma vez, aquele valor totalmente fora da casinha. eu queria viver num mundo em que coisas de casamento custam 100 reais. agradeci e fui embora.

cara, já era meio-dia.

bom, eu estou no auge da organização do meu casamento. e, com sinceridade, estou encontrando dificuldades pra achar diversão, apesar de ser uma etapa de descobertas. descobri, por exemplo, que de jeito nenhum posso fazer uma mesa de buffet sem um arranjo de flores. sei lá, pra mim ninguém vê arranjo em mesa de buffet. a atenção dos convidados está toda no mignon ao molho mostarda, não está? não tem como as flores competirem com um monte de mignon que você sabe que vai comer de graça.

também descobri que é uma espécie de ato infracional não querer mesa de docinho nem de bolo. quando eu digo que não quero, os fornecedores me olham como se eu fosse uma daquelas mulheres imbecis, metidas a serem pioneiras, arrojadas e a frente do seu tempo. o escândalo que eu causo é absurdo, como se, na verdade, eu tivesse dito que sou empresária, dona de uma clínica de aborto.

eu não sou arrojada. realmente não sou arrojada. eu só não quero que a cena do ataque ao docinho se repita no meu casamento. aquela cena de depois do jantar, em que parece que alguém tocou uma sirene e as pessoas voam para a mesa de docinhos como se o mundo estivesse no pós-guerra e aquela mesa fosse tudo o que os convidados têm para comer pelo resto de suas vidas. saem carregando os docinhos como se tivessem segurando um nenê num tiroteio, com os olhos esbugalhados, suando, com medo de que no caminho até o seu lugar na festa algo aconteça para impedi-los de comer tudo aquilo sozinhos (tipo aparecer alguém pedindo um dois-amores). aí quando todas as pessoas se afastam, você vê que até a decoração da mesa não está mais lá. eles comeram tudo.”

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que cor ele tem? azul, amarelo, vermelho também.

que cor tem um casamento?

às vezes é vermelho. na verdade, todo mundo acha que é vermelho. e acha que é vermelho o tempo todo. vermelho da paixão, do amor, dos pegas, enfim.

mas para ele prevalecer, são necessárias tantas outras cores. o azul, por exemplo. eu gosto do azul. o azul da gentileza. do abraço na escada rolante. o azul da mansidão na resposta para a pergunta feita mais de uma vez, uma atrás da outra. o azul de quem encontrou a doçura no caminhar. no caminhar em direção ao outro quando ele chama. o azul do cavalheirismo. da paciência.

há também o amarelo. o amarelo é bem legal. é meio que luz, eu acho. a luz que brilha na resposta séria e sincera, sem rodeios nem mentirinhas criadas para amenizar pro seu lado. a luz que brilha do coração que não é escuro. que brilha no rosto de expressões suaves. o amarelo é a luz que eu jogo no meu eu e me ajuda a lidar com o que eu sou de verdade. a luz que me ajuda a ver o que eu sou e que me impede de me justificar. está tudo claro demais para eu usar os defeitos do outro para amenizar os meus.

tem preto? tem. infelizmente tem. nós precisamos ser honestos. são muitas coisas escuras. o olhar às vezes é obscuro. a voz. o gesticular. porque escura é a intenção do coração. é negra, como o egoísmo, a rigidez no coração, a soberba na mente. o não voltar atrás é preto. a ironia na resposta, o cinismo na risada, a frieza da indiferença são pretos. como um poço. como uma valeta.

que venha então o branco. o branco que há no coração quebrantado. no coração que reconhece. no coração que se arrepende. ah, a tranquilidade do branco. o branco sereno. como as nuvens. como a lágrima e as vestes de quem foi redimido. como as páginas da Bíblia.

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a rapadura é doce, mas não é mole

por mais que você namore durante anos, quando você casa é diferente.

eu ouvi essa frase umas centenas de vezes. de gente com o casamento super em dia, de gente com casamento ruindo, de gente com casamento ok, de gente lutando para não deixar a coisa desandar, de gente que sufoca o cônjuge, de gente completamente saudável e de gente que vive numa realidade paralela.

eu ouvi essa frase de todos os tipos de pessoas.

e elas estão absolutamente certas.

é muito diferente.

eu não sei detalhar bem o motivo porque a explicação está no âmbito do existencial. é diferente porque… é. sei lá, quando você é namorado, você releva mais as coisas porque, meu, que se exploda, no final do dia você vai pra sua casa mesmo. e você enxerga infinitamente menos aquelas patologiazinhas humanas que no microscópio ficam tão assustadoras. no namoro são praticamente invisíveis porque você sequer usa óculos.

no casamento, a convivência é o microscópio.

na verdade, a convivência é uma luneta de observar astros. uma lente fundo de garrafa. zoom infinito.

não é romântico. ninguém fica suspirando, não. cara, dá trabalho. e do pesado. numa linguagem de reforma, o casamento é o banheiro onde você quer colocar piso de porcelanato. o amor é o rejunte epoxi. é preciso muita atenção na hora da aplicação do rejunte e no corte do porcelanato. se houver esse cuidado, o resultado é lindo. determinante, eu diria. caso contrário, o prejuízo… ah, o prejuízo…

é tudo tão difícil de verbalizar, de passar para o outro, de captar. você jura que já viu as coisas mais cabeludas e no fim… apenas uma palavra te vem a mente.

“estagiária”.

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